Conversando com Caetano

Mesmo não estando lançando um novo show ou disco, Caetano Veloso aceitou a proposta. Esta - passada ele através de sua gravadora, a Polygram -, era a de se avistar com um crítico de música erudita. Através de uma rápida conversa telefônica (na qual, inclusive, ele confessou não conhecer nada do meu próprio trrabalho, e onde houve espaço até para boas risadas), ficou acertado que eu iria até o Rio para vê-lo. Desde que, é claro, ele não se sentisse obrigado a autorizar a publicação daquilo que, porventura, resultasse desse encontro.

Discreto e cortês, introvertido e vagamente meigo, alheio e atento a um só tempo, Caetano veio até a porta de sua casa a fim de receber quem chegava. Figura frágil, ossos e medula de um ser, ele, decididamente, não dava a impressão de estar em um palco, onde o vira tantas vezes. Ou melhor: parecia estar no chamado palco da vida, só que representando um papel que era até de se estranhar, de tão natural, de tão verdadeiro. Seu belo nome completo - Caetano Emanuel Viana Telles Veloso - ficara para trás. Ele, até então um mito, encarnava-se agora em um incomum homem comum.
Instalados em um canto da sala de sua casa, disse-lhe que o vira pela primeira vez em "Arena Canta Bahia", em 1965, espetáculo no qual ele era o tímido violonista "irmão de Maria Bethânia", a espantosa defensora de "Carcará". Contei-lhe, também, que vinha acompanhando o seu trabalho - às vezes de mais perto, às vezes mais de longe - há vinte anos, e que gostava muito de muitas de suas canções.

- Você é crítico de música erudita, não?

- Sim, mas isso não me impede de gostar de música popular...

Ficou resolvido que a entrevista seria gravada. Mas depois de vinte minutos de conversa, notamos que a tecnologia havia nos pregado uma peça: o gravador não havia registrado nada do que fora dito: "Que pena", considerou Caetano, "mas podemos recomeçar tudo outra vez, ou começar de onde você quiser".
Disse-lhe, à maneira de uma isca, para puxar conversa:

- Trouxe-lhe alguns recados. Um deles é de Haroldo de Campos, que disse ter de você e de Dedé "as saudades de sempre". (Ele sorri.) Você sabia que Haroldo de Campos passou a estudar, depois dos 50 anos, o hebraico?

- Hebraico? Não, não sabia.

Passo-lhe um texto, que ele se põe a ler, seus olhos brilham mais forte. Peço a ele, então, que leia o texto em voz alta.

- Não, eu não sei ler isto. E como é bonito...

Volta a ler em silêncio aquele texto. Uma tênue transformação se passa em sua fisionomia, como se o entusiasmo assomasse. E, então, com aquela voz que já é música, ele passa a dizer em voz alta isto que ele está vendo pela primeira vez. Às vezes pára um pouco, solta uma exclamação, sorri como se estivesse descobrindo alguma coisa que o encanta. E fala, quase como um canto:

- No começar    Deus criando:
o fogoágua    e a terra
  E a terra   era lodo    torvo
  e a treva     sobre o rosto do abismo
  e o sopro-Deus revoa sobre o rosto da água
  E Deus disse    seja luz
  e foi luz
  E Deus viu que era boa a luz
  e Deus dividiu   luz     e treva
  E Deus   chamou à luz    dia
  e à treva   chamou noite
  e foi tarde e foi manhã
  dia um

Caetano detém-se nesse ponto do texto. Recomeça a ler, torna a ficar em silêncio e finalmente diz:

- É lindo, eu não conhecia. Como você o conseguiu?

- Se você quiser, posso levar de volta, como um novo recado, um pedido seu. Talvez ele possa enviar-lhe um exemplar dessa tradução dos primeiros versículos do Gênesis. Atualmente, parece que ele anda trabalhando em outros textos do Velho Testamento.

- Haroldo, que pessoa extraordinária! Aprendendo hebraico para fazer essas traduções... Como soa bem em português "fogoágua", como texto todo toma uma outra dimensão, assim transformado. Até parece que aquele texto que a gente já conhecia ficou parecendo mais verdadeiro. Que força ele tem agora para mim! Até parece que o que é dito aí é verdadeiro...

Caetano dissera, no mês passado e em Portugual, que freqüentou a Faculdade de Filosofia, em Salvador, abandonou-a no segundo ano, em 1964, por causa do golpe. Disse também que "já adorava música popular", mas não pensava em ser músico nem cantor - "professor, talvez". E se interessava por Filosofia, "não por achar bonito, porque quisesse brilhar naquela área".

- Caetano, você disse que se aproximou da Filosofia "como filósofo, mesmo", porque "era uma questão de vida". Seria possível falar mais um pouco a respeito disso?

- Ah, eu disse isso em Lisboa, em Portugual. Não me lembro do que disse, então. Ainda não li a entrevista que você me prometeu trazer.

Passo-lhe, assim, uma cópia da entrevista publicada no "Jornal de Letras e Artes", de Lisboa, assinada por Inês Pedrosa. Olha para as duas páginas dedicadas a ele, deixa-as de lado e diz:

- Mas é isso mesmo, é uma questão de vida. Eu era "filósofo" desde menino, daquele jeito que as pessoas falam dos meninos sonhadores, absortos, distraídos: "Esse menino é um filósofo..." Eu tinha muita vontade de conhecer o mundo, de conhecer aqueles que haviam pensado o mundo. Mas o curso na faculdade era uma droga.

- Ele tirou algo do seu interesse pela Filosofia?

- Não. Mas também não possibilitou que eu tivesse uma formação mais sistemática, acadêmica, se você quiser. E então eu me voltei sozinho para a Filosofia e, mais tarde, com a ajuda de Péricles Cavalcanti e Jorge Mautner, nos tempos em que fui morar na Europa. Gosto muito dos pré-socráticos, daqueles fragmentos tão curtos, tão densos que parecia poesia. Sobretudo de Heráclito de Éfeso e de Parmênides de Eléia.

(Qual seria o Heráclito preferido de Caetano? Seria aquele segundo o qual "é preciso que de muitas coisas sejam inquiridores os homens amantes da sabedoria", aquele que considera que "tempo é criança brincando" ou aquele que afirma que "lutar contra o coração é difícil; pois o que ele quer comprar-se a preço de alma"? E o seu Parmênides? Seria o que diz que "para mim é comum donde eu comece; pois aí de novo chegarei de volta"? Não foi possível saber, naquele momento.) Era necessário continuar a entrevista. E assim foi:

- Teria sido assim, algo pela via de uma Filosofia que parece poesia, que você teria chegado a Nietzsche?

- Ah, sim, como depois me explicaram os meus amigos que conhecem bem Filosofia. Pois eu, como já disse mais de uma vez, não sou especialista em nada. Mas também gosto muito daqueles filósofos que pensam que tudo vinha de um só elemento.

Dizendo isso, Caetano fecha as mãos em forma de esfera, gesto que interpreto como a representação de uma mônada. Ele continua:

- Mas sou também muito racional, gosto de usar a minha mente racionalmente. E, assim, também me encantam aqueles monumentos filosóficos tão bem construídos, tão sistemáticos como os de Hegel, Heidegger e Marx.

- Pois soube que você tem até um plano de ler Marx...

Caetano passa do sorriso ao riso aberto e, imediatamente, responde:

- Aliás, gosto de provocar. Em meu último disco, "Velô", digo na canção "Língua": "E sei que a poesia está para a prosa/ Assim como o amor está para a amizade/ e quem há de negar que esta lhe é superior?". Para mim, isso é provocador, bastante provocador...

E a conversa continua, ganhando um tom mais animado, já que Caetano, mesmo se confessando muito cansado, mostra-se disposto a ir além. E eu proponho:

- Agora já se sabe qual é a sua arte. Você disse recentemente, em Portugual: "É a canção. Não é nem música, porque música também é uma outra coisa séria como a poesia. É a canção popular, que não é nem música nem poesia. É divertimento para as massas". Para você ela é só isso?

- Bom, para mim, não. Quer dizer, para mim não é que é só isso, é que a canção popular é isso, de fato. Mas não é só isso, sobretudo para mim. Eu, por vezes, suponho que esse status de direito não corresponde necessariamente ao que de fato é a canção popular, ou ao que ela possa ser, ou ao que pode acontecer no mundo das canção popular, ou dentro de uma canção popular. Ou, ainda, ao fato de alguém trabalhar dentro desse ramo. Porque falo isso, é apenas uma constatação. Ela é divertimento para as massas - essa é a posição real da canção popular. Ou, ao menos, ao que a gente chama hoje de canção popular. Ela é uma coisa pós-Revolução Industrial, pertecente ao tal mundo das massas que tanta gente teme, que tanta gente entrevê e que ninguém sabe direito no que pode dar. Mas que a mim me fascina. E eu acho que a canção popular inclusive pode ser muito mais do que isso exatamente por ser isso... Talvez tudo o mais só pode ser menos que isso. E a canção popular, atualmente, é isso. E pode ser mais que isso. Quer dizer, eu posso falar da canção tanto de um ponto de vista aparentemente modesto quanto de um ponto de vista ultrapresunçoso, pretensioso. O que falei, em Portugual, tem dois gumes. E eu sei disso.

- Mas falar não é sempre isso, produzir não é sempre isso? Caetano sorri uma vez mais, dando a impressão de tomar ainda mais gosto pela conversa. E diz:

- É sempre tudo, menos isso... Mas acho que essa questão da canção popular pode ser uma coisa muito interessante, pode tocar em coisas muito importantes. Há o risco permanente de que ela seja realmente alguma coisa de grande força, a canção. De todo modo, uma coisa que, no momento, é de fato interessante em todos os níveis. É um lugar que pode interressar a mente da gente em vários níveis.

Partindo da constatação de que a canção popular é um fenômeno de massas - "pelo fato mesmo de ser uma diversão para as massas" -, Caetano passa a estabelecer um relação entre ela e o cinema, a fim de evidenciar a própria condição em que se encontra a sua atividade:

- Quanto ao cinema, tem-se muito mais facilidade de considerá-lo como uma atividade intelectual de primeira ordem do que a da canção popular. Curiosamente, quando o cinema é até mais basicamente diversão para as massas do que a canção popular, que é uma coisa que ficou assim, mas que, de todo modo, se originou de uma coisa mais antiga... Enfim, ela tem relações com o que foi a música e a poesia até aqui. O cinema é algo que apareceu mesmo depois da revolução industrial e não apareceria sem ela. No entanto, não há grandes problemas em se pensar em Bergman ou em Godard como duas pessoas intelectualmente respetáveis. Dificilmente alguém diria o mesmo de Mick Jagger e rarissimamente se diz isso de Bob Dylan. Percebo isso a partir da minha própria posição, dentro da área em que atuo, e que algumas pessoas consideram digna de pena...

Digo a Caetano que parece que vivemos em uma época na qual, segundo algumas pessoas interessadas no assunto, se tem a impressão de que uma linguagem se satura em outra, rompendo os seus próprios limites. E exemplifico:

- Houve, no século passado, uma forma musical chamada poema sinfônico, através da qual os compositores partiam de elementos extramusicais para construir obras musicais. Um quadro, uma impressão de viagem, uma idéia filosófica podiam, então, ser colocados em música...

- Assim falou Zaratustra de Strauss, por exemplo.

- Exato. E o próprio Richard Strauss foi responsável por um dos últimos poemas sinfônicos que talvez ainda podem ser ouvidos com gosto, Uma Sinfonia Alpina, de 1911. Essa obra, que dura cerca de uma hora, tem mais de 20 partes diferentes e apresentadas sem interrupção. Na sua estréia, houve até a necessidade de se usar de tabuletas, a fim de "mostrar" para o público onde se estava na música, ora em um amanhecer, ora diante de uma cascata, ora diante de "prados floridos"... E o cinema mudo, com suas legendas, já havia resolvido melhor essa associação entre linguagens, materializando o poema sinfônico a ponto de a própria música, a partir de então, poder-se preocupar-se com outras coisas...

- Com música...

- Sobretudo.

- Adoro cinema. Mas acho curiosa essa relação, que me faz pensar um pouquinho. Isso porque o cinema mudo precisava, de vez em quando, daquelas tabuletinhas para indicar. Mas a música nunca está dizendo nada de cachoeiras, dessas coisas...

(Lembro-me, agora, de uma outra formulação do próprio Caetano, que reforma em outra área, idéias parecidas às de Mendelssohn e Stravinsky a respeito da música: "É uma linguagem inteligível e não diz outra coisa a não ser música. Não diz nada. E todo o mundo entende".) Continuo:

- Mas a própria música pode voltar a precisar de tabuletas. Outro dia, em São Paulo, ouvi um trabalho ultra-sofisticado em termos estruturais, que era uma improvisação coletiva em torno de materiais retirados das obras de Bartok e Berg e que soava extraordinariamente bem. Dois pianos se opunham, nos lados opostos do palco, mediados por um sintetizador e mais trombones, viola e voz. Todos se trocavam informações sonoras altamente elaboradas. Mas, às vezes - o que estragava para mim um tanto do efeito da obra -, aparecia um texto lido, excessivamente linear e "explicativo", que não estava integrado organicamente à matéria sonora... Para mim, ali a linguagem verbal não estava recebendo, em termos qualitativos, os mesmos cuidados dispensados à linguagem musical. Isso foi de uma vez. Em outra noite, eles próprios perceberam que o texto precisava ser trabalhado. E fizeram isso muito bem.

Caetano fica muito curioso e quer saber detalhes desse trabalho (In memoriam Bartok/Berg) realizado pelo Grupo de Música Contemporânea Coletiva. Pergunta como foi pensada a composição:

- Foi a partir de temas, de inspiração em estilos?

- Era algo um tanto mais complexo, com a exploração de "idéias" (acordes, motivos rítmicos, melódicos, relações intervalares, etc.) que se integrariam.

Caetano quer saber o nome das pessoas que pensaram esse trabalho e lembro-me de dois deles - Paulo César Guimarães Álvares e Florivaldo Menezes Filho. E ri gostosamente quando conto que Augusto de Campos, sentado ao meu lado quando ouvi essa improvisação pela primeira vez, imediatamente a batizou de Bergtok. Ele comenta:

- Bergtok, Bergtok. Até parece nome de sintetizador. A idéia desse trabalho é fascinante.

A canção popular volta à tona, na medida em que confesso que, para mim, ela está um tanto distante desse tipo de trabalho, já pela sua própria maneira de se articular. E que, nela, a palavra não funciona como simples tabuleta. Para mim, a canção é outra coisa e que me encanta por operar na própria cotidianidade, transformando-a.

Será que o encantamento que ela produz viria do fato de ela tratar do cotidiano transfigurando-o em algo mais prazeroso? Será que - e Caetano me interrompe:

- Mas ela é banal. É isso o que estou dizendo, ela é basicamente divertimento para as massas. De qualquer modo, ela é realmente uma outra coisa... Seria preciso falar das velhas canções folclóricas da Europa pré-industrial, das árias de óperas, dos Lieder, enfim, de toda a música cantada para saber de que linhas ela se nutriu. Pois ela, hoje, é outra coisa sobretudo porque ela se dirige a uma enorme quantidade de pessoas. Seria preciso falar do tipo de vida que essas pessoas, em tão grande quantidade, têm que levar e que, repetidas vezes, é considerada muito inferior à vida que possa ter havido em quaisquer outras épocas. Mas essa consideração nunca me convence de todo. Leio sempre em livros, jornais - sobretudo os jornalistas gostam muito de dizer que houve um tempo em que as coisas eram melhores..., que hoje em dia a gente leva uma vida banal, horrorosa.

E Caetano continua, na sua sinceridade que também é provocação:

- Não sei se isso acontece em uma redação de jornal. Eu nunca entrei em uma. Mas na área da música popular é difícil me convencer disso. Gosto da contemporaneidade. Acho que é amedrontadora também, é desencorajamente, mas é também entusiasmante. De todo modo, enche a gente de tudo, é muito rica a vida que a gente tem como complexidade; na contemporaneidade as possibilidades são imensas e há os desníveis e as perguntas.

- E você faz canções.

- É. E a canção popular está jogada nisso. Eu não tenho uma opinião formada sobre o que é esse mundo. Só estou dizendo como me sinto nele. E também não tenho uma opinião sobre o que é a música popular moderna, que é uma coisa desse mundo mesmo. Por isso que digo que é um divertimento para as massas. Mas isso não é mau, necessariamente, porque nunca houve isso, na verdade. É uma coisa dos nossos tempos. Muita gente diz que é mau, mas nunca entendo por que é mau.

Proponho algumas idéias que, no momento, considero "complementares". Lembro que a História é um conceito Ocidental e relativamente recente, que nós próprios criamos. No setor da música erudita, não faz muito que se tomou consciência da própria História. Tomou-se consciência aguda disso, em nosso século, ao mesmo tempo em que se relativizou o conceito de História como sendo algo baseado apenas em causas e efeitos. E digo:

- Gosto de brincar com a idéia de que a música antiga é uma invenção moderna. Nos outros tempos, ouvia-se sobretudo...

- Música contemporânea.

- Exato. Mas esse passado, musicalmente recriado a partir de algumas marcas algumas vezes bem tênues, só pode ser vivido enquanto presentidade, como coisa de hoje. O século XX descobriu musicalmente o Barroco, o Renascimento e até coisas bem mais antigas. Essas coisas possuem, como marcas - inclusive marcas gráficas - algo, que "interpretado" hoje e que, no fundo, essas músicas, só podem ser ouvidas seriamente como hipóteses daquilo que poderia ser sido. Assim parece-me curioso que precisamente no instante em que a História passa a ter consciência de si, ela própria fica relativizada como conceito, porque todas as coisas, hoje, acontecem ao mesmo tempo - múltiplas faixas do passado e do presente.

Caetano comenta e vai adiante:

- Sim, isso é uma coisa bem do Ocidente e se dá não só em relação à música como a tudo mais. Inclusive com a própria idéia de civilização. Acho que é a única experiência de sociedade que critica a sua própria possibilidade de etnocentrismo, que procura relativizar-se, que procura rever outros períodos, que procura dar conta da própria posição diante do seu passado, do passado de outras sociedades, do presente de sociedades diferentes... Em suma, isso é uma marca do Ocidente. E isso é uma marca de superioridade no sentido em que você pode dizer que um adulto é superior a uma criança. É estranho, mas é assim. É muito estranho, mas há um tipo de superioridade de um sobre o outro...

Outro elemento é levantado: o de que a área da música erudita - ao menos parte das pessoas que aí operam pensa assim - considera a música popular como inferior. Volto a dizer que a questão poderia ser vista de outro modo - a de que essas áreas articulam seus discursos de maneiras distintas, ora com maior complexidade (a área erudita), ora com maior simplicidade (a popular). Caetano, depois de dizer, estrategicamente, que não conhece muito música erudita - o que, nem de longe, é um fato -, lembra de um encontro que teve com Ernst Widmer, chefe do Departamento de Música da Universidade da Bahia, hoje integrando o júri do Prêmio Eldorado de Música:

- Haviam me pedido para participar de uma gravação para a televisão em homenagem a Walter Smetak, um compositor suiço que vivia em Salvador. E pediram que eu e o Widmer tocássemos os instrumentos criados por Smetak e que conversássemos sobre eles. Conheço pouco o Widmer, ele é sempre simpático e gentil. Mas nesse dia a gente tinha de levar uma conversa mais longe, pública. Tive um contato mais demorado com o Widmer. Entrou até um pouco dessa questão música erudita - música popular. E ele me perguntou por que não fazíamos músicas sem "base" - que são essas bases rítmicas e harmônicas que utilizamos quando fazemos canções. E, às vezes, até a gente faz música sem "base". Fiz até um LP...

- Araça Azul?

- Sim. E que tem coisas muito loucas que não tem nem "base", nem música, nem palavras. E eu sabia que havia músicos eruditos da própria Universidade que me fizeram críticas negativas, que me pareceram justas. Eles achavam que aquilo não tinha um valor musical considerável. Daí eu disse ao Widmer que nessa área que trabalho, a da canção, a "base" tem um certo papel de estímulo, que pode ser eficaz, que pode ser arriscado. De todo o modo, o nosso trabalho é diferente, porque vocês trabalham com alguma coisa diferente, estão solidificando uma matéria que vem sendo trabalhada há muito tempo. E a gente trabalha com o lixo, a nossa matéria-prima é o lixo. O Widmer riu um pouco e falou que não, que há uma certa forma. Mas em um ponto nós ficamos inteiramente de acordo. Ambos achávamos que a música de Dorival Caymmi é de primeira qualidade, é linda. E ele falou que aquilo é algo de inteiramente lindo, não acaba nunca e nunca deixa de ser bonito. Algo que a gente nunca consegue pegar no todo - é de uma qualidade muito especial...

Caetano ri ao relembrar isso. E volta a falar da qualidade:

- Pensando em Heráclito ou em quem quer que você queira - Webern, Heidegger, Berg, Bartok, Stockhausen, Proust - pensando em tudo o que conheço, daquilo tudo que conheço, uma das coisas mais incríveis é mesmo João Gilberto. Assim, não se trata de um preconceito de que eu acho que a música erudita é necessariamente melhor. Eu não digo isso. Mas, neste momento, eu entendo que haja essa situação do jeito que está, é real, mesmo. A gente trabalha com uma coisa que é mais do lixo, das redundâncias. Usamos o que já foi jogado fora por outras áreas. Só que eu não acredito na linearidade da História nem das Artes. É meio um pouco confuso, complicado, complexo demais para mim. E lá estava eu vendo o Widmer tirar os sons mais incríveis daqueles incríveis instrumentos de Smetak. E eu via que ele entende realmente mais de música e de qualidade de som do que eu. Quanta depuração! Eu não soube me explicar muito bem, mas acho que esta história que contei passa por muitos pontos dessa questão que você colocou sobre a música erudita e a popular. Pois não é só querer que seja uma coisa só, algo que não é, nem de assumir um ponto de vista partenalista das áreas eruditas em relação às áreas vulgares. Isso até parece padre que deixa de usar batina e diz que não é mais pecado o sexo antes do casamento, dando a impressão de ser modernoso...

- E você acha que, neste momento, estou sendo partenalista nesta conversa com você, Caetano?

- Não, de jeito nenhum. Por que você?

- Porque, em certo sentido, tenho uma certa "formação" erudita e venho conversar com um músico popular...

- Não, não é você, é esse assunto. Mesmo em mim isso ocorre, também, deve estar em você, porque esse assunto está no ar. A questão erudita popular está no ar, como as outras coisas às quais me referi.

Brinco, então, um pouco com o fato de Paul Valéry ter falado da consciência como sendo "mistura" e não algo puro. Arrisco perguntar se a música dele, Caetano, também não seria mistura, sobretudo por ser paródia, comentário crítico, canto paralelo do que ocorre. Ele concorda dizendo que sempre está "comentando" um samba-canção, um bolero, um frevo e assim por diante. E daí ele quer saber algo do meu próprio gosto:

- Você gosta de Gershwin?

- Sim, muitíssimo. E você sabe também, quem gostava muito de Gershwin? Um tal de Schoenberg...

- Schoenberg, eu sei quem é. Ele gostava das canções ou daquelas coisas semi- eruditas de Gershwin?

- Das canções. Ele dizia que Gershwin era o Schubert do século XX.

- Você sabe de uma coisa? Eu acho também. Naquele livro de Otto Maria Carpeaux...

- "Uma Nova História da Música"?

- Sim, a única História da Música que eu li na minha vida, que é um livro muito simpático, muito bonito, muito bem escrito...

- E que não é bem uma História da Música, mas uma espécie de História da Cultura centrada em certos fatos musicais.

- Sim, mas eu nunca li uma história da música e aquilo é muito História da Música para mim... (Ri gostosamente.) Pois ali ele diz algo assim que foi uma pena o Gershwin ter gasto tanto tempo com canções comerciais. Ele vê isso como um dado negativo. Eu não sabia que Schoenberg gostava das canções de Gershwin, que acho maravilhosas. São canções lindíssimas, ricas, fortes, passam-se a impressão de que se está diante de algo bem composto, de algo muito bom.

A conversa já dura mais de duas horas. E ela ainda prolifera. Tratamos de Proust ("sensibilidade extraordinária", mas também "um moralista", diz Caetano), de Augusto de Campos ("uma pessoa incrível, um poeta maravilhoso" e que foi "o primeiro a compreender as transformações que operamos na canção popular, no início da década de 1960"), de John Cage ("que, apesar de não gostar de música popular, prefere o rock ao jazz, como eu", diz Caetano), de Wittgenstein ("se você procurou encontrar na obra dele uma concepção de estética e saiu desse trabalho com as mãos vazias, você teve, realmente, uma experiência estética maravilhosa". Enfim, a partir de um instante em que ambos já não se consideram "especialistas" em coisa alguma, foi possível chegar a isto que Caetano fez questão de frisar:

- O meu material é o banal, contém a dimensão do banal. Mas não acho que o resultado do meu trabalho seja banal é absolutamente necessária. É algo que eu preciso digerir, explicitar e também que preciso pensar. Nem todos os compositores de música popular precisam passar por essa consciência da banalidade para não serem meramente banais, entende? Por exemplo, Milton Nascimento, que eu adoro, é o caso oposto nesse sentido.

Lembro então a ele que, na área erudita, também aconteceu algo semelhante. O musicólogo francês Dominique Jameux chamou a minha atenção sobre isso em seu livro (de 500 páginas...) sobre Pierre Boulez. Ali ele conta que certos compositores ocidentais, como Mozart, Schubert, Debussy e Berg, faziam música sem se questionarem, como se fossem pássaros... E que outros, em contrapartida - Beethoven, Mahler e Schoenberg, por exemplo -, questionavam-se a cada passo a ser dado em direção a uma nova obra. Nestes últimos, há como que a necessidade de um acompanhar criticamente o próprio processo criativo, em um intricado jogo especular, de espelhos.

- Sua própria canção "Peter Gast", do penúltimo disco lançado, Uns, aponta para isso. As duas primeiras estrofes começam, respectivamente, com estas palavras "Sou um homem comum/ Qualquer um" e "Ninguém é comum/ E eu sou ninguém". Esse "paradoxo" se dá para um homem "enganado entre a dor/ e o prazer"... Minha "consultora" em matéria de Filosofia, Maria Lucia Machado, explicou-me que "isto não é nada de présocrático, como você imagina, pois aí existe uma passagem de uma idéia para outra que é bem sinal da consciência da miséria - no sentido mais geral - do Homem de hoje". Caetano sorri:

- É, "Peter Gast" é bem moderno, é bem da atualidade...

Alguns dos momentos mais fascinantes, ao menos para mim, nascidos dessa conversa com Caetano que durou exatamente três horas, surgiram de um "jogo" que propus a ele. Dizendo-lhe que ouvia a sua música há uns bons 20 anos, sugeri a ele que me deixasse ver seu rosto e ouvir a sua voz , enquanto ouvisse os "objetos sonoros não identificados" que trouxera comigo. E foi assim que, sem etiquetas ou rótulos preliminares, ele ouviu nove músicas desconhecidas. De seu rosto de mil expressões não é possível dizer nada. Mas aqui estão algumas das suas primeiras impressões diante de algumas dessas músicas que ouvia pela primeira vez:

Caetano: "Que música mais bonita! Impressionou-me. No início, fiquei sem saber se era uma coisa oriental, embora eu não pudesse localizar de que oriente, ou se era coisa ocidental moderna, que se estava referindo a alguma coisa oriental. Mas sabia, também que como composição, não podia ser uma coisa ocidental moderna. Eu não estava localizando de onde ela vinha. E, de repente, há uma espécie de mudança, de modulação. Aí me deu a certeza de que era Ocidente, mas de coisa que era feita agora. A modulação foi emocionante, pois dá a sensação de liberdade. Aí está algo dessa passagem de uma coisa para outra, que é bem do Ocidente."

(O trecho fora retirado do disco Musique de La Gréce Antique, bela hipótese do grupo Atrium Musicae de Madri, baseada em um fragmento de um coro de Orestes de Eurípides. Caetano diz, depois que a informação lhe é passada: "O resultado é curiosíssimo; é como se pode, hoje, imaginar como teria sido a música na Grécia...".)

Caetano: "Parece Laure Anderson, uma mulher meio do rock, meio de música de vanguarda de Nova York. E que faz umas coisas que se repetem, meio à maneira minimalista. E parece uma coisa que tem nostalgia da coisa africana, daquela repetição gostosa. Bonito e bem-feito. Mas não achei tão profundo. Quando ouço uma música africana que tem isso, sinto mais emoção.

(Trecho retirado da obra Tehillim - Salmos - que o compositor minimalista norte- americano Steve Reich escreveu em 1981.)

Caetano: (Durante a audição desta música, ri deliciado, cantarola junto com a cantora quando esta repete o refrão.) Ri porque adorei. Nunca havia ouvido essa canção na minha vida. Não sei o que é e é lindíssima. Essa mulher é uma cantora de ópera, de música erudita? Sem dúvida que ela estudou canto - vejo pela empostação, pela dicção. Canta extraordinariamente bem, isso: a afirmação e o swing são lindos. Aquele trinadinho que aparece naquela frase descendente, levemente lusitana, é linda. Gostei desde o início. E quando a referência à Bahia apareceu, eu já estava ganho… Ela é paulista? Ela canta bem à bessa.

(Canção A Mulata, de Xisto Bahia e Mello Moraes Filho, do sec. XIX, do disco Songs from Brazil, que a paulista Clara Petraglia gravou nos Estados Unidos, na década de 50, e que foi mal lançado no Brasil, anos depois.)

Caetano: Lindinho... Lindinho... Isso eu gosto normal, totalmente. Eu me sinto em casa. Parece coisa do Recôncavo Baiano, para mim. Coisa de criança. Pode ser África, também. Pensei que aí tem uma certa harmonização, de padres que treinam as crianças.

(Ele ri deliciado quando fica sabendo que essa canção infantil de Baluba é do Congo, da África. E, de fato, aí há a mão do Père Guido Haazen harmonizando a criançada... Isso se encontra em um disco lançado no Brasil há muitos anos e que, "do outro lado" traz a Missa Luba.)

Caetano: É bom, esse meio-tom fica mais interessante ainda por causa desse batimento. Sobretudo por causa do timbre, que não é de instrumento musical. Parece que a pessoa ficou fazendo uns ritminhos com esse meio-tom. Achei que ia ter mais mistério na composição, no acontecimento.

(O exemplo foi retirado de um disco dedicado à música do Norte da Índia, da região de Orissa. Ele registra o que faz um homem com dois búzios tocados simultaneamente e "afinados" com um semitom de diferença. Búzios: shankh; Turbinella pyrum.)

Caetano: Isso é lindo, é demais. Começou parecendo Miles Davis, depois Hermeto. É trombone e trombonista, é mistura de som e voz, de lábios.

(A obra ouvida é Sequenza V, de 1966, do compositor italiano Luciano Berio. Trata-se de uma partitura pensada para um trombonista e o seu instrumento, que inclui até mesmo ação cênica.)

Caetano: Você me disse que a gente ia ouvir jazz. Mas isso não é jazz... É bacana. Achei que não era americano de jeito nenhum, não era grupo de preto. Bonito à bessa e muito surpreendente. Tudo bem feito, mas a gente não sabe para onde vai esse vôo. Gente bem educada também voa!

(Trecho retirado de um disco do contrabaixista alemão Eberhard Weber, editado no Brasil pela ECM, em 1983.)

Conto a Caetano que também gosto de provocar, dizendo que aquele que pensa muito só em um instrumento, só em um gênero musical, só em um compositor, não tem muito tempo para gostar de música... Dando uma das mais gostosas gargalhadas da noite lembra:

- Tim Maia tem razão. Durante um festival de jazz, ele dizia para mim com aquele belo vozeirão: "É tudo musicista, não tem músico". Eu adorei.

Ainda demos muita risadas por uma razão ou outra. Quando Chico Noli passou para me buscar, Caetano acompanhou-me até o portão de sua casa. E ficou acenando, com os olhos, quando o carro já ia embora. Não sei por que me-passou pela cabeça uma melodia cantada - reconheci logo, era a voz de Caetano - que "dizia", com palavras, algo assim: "Você é forte/ Letras e músicas/ Todas as músicas/ Que ainda hei de ouvir"...

J. Jota de Moraes
6/06/85 - Jornal da Tarde - Caderno de Programa e Leituras