fala Caetano

Só e sozinho

 Vivo cantando “Chora tua tristeza”, desde que aprendi no primeiro disco de Carlos Lyra. Gil é quem destacava Lyra e procurava tocar todas as suas composições. Esse samba do qual nunca me afastei não era composição de Lyra mas de Oscar Castro Neves. Oscar o compôs aos 16 ou 17 anos, em parceria com Luvercy Fiorini. A descida para o relativo menor, liderada pela melodia que explicitava a terça da dominante desse relativo, lhe dava um ar de composição romântica; as palavras de Fiorini reafirmavam essa tendência. A atração pela grande canção americana não se traduziu, na bossa nova, apenas em elegância formal, mas também em admitir que a poesia das canções pudesse exibir algum otimismo: diferentemente das canções americanas, em que as histórias de amor vitorioso são mais frequentes do que as de amor fracassado, os sambas, as valsas, as toadas, os sambas-canções brasileiros (assim como os boleros mexicanos e cubanos e os tangos argentinos) pareciam nascer da certeza de que uma cantiga só chegaria ao coração do ouvinte se falasse de traição, rompimento e separação. Refazendo o gesto de “Chega de saudade”, “Chora tua tristeza” anunciava que a canção popular no Brasil iria virar essa mesa. Sambas quanto a isso revolucionários como “O barquinho” não surgiriam sem a comissão de frente de “Brigas nunca mais” e seus dois antecessores. Acho que essa virada nas letras teve e tem consequências de toda ordem em nossa vida. Sua dimensão política nem tão cedo será devidamente apreciada. É imensa.
Canto tão em casa o samba de Castro Neves que só o fui gravar por causa de uma carta que recebi de Maddalena, irmã de Federico, me instando a fazer uma apresentação em Rimini para a Fudação Fellini. Ela conhecia a música que fiz sobre Giulietta Masina e tinha lido entrevistas minhas a jornais italianos em que falo sobre os filmes do seu irmão e da sua cunhada. Eu estava nos Estados Unidos quando recebi a carta. Desde o primeiro instante pensei em “Chora tua tristeza”. Passando por Los Angeles, liguei para Oscar e pedi que ele me tirasse, por telefone, uma dúvida de harmonia. Oscar me disse que viria até o hotel onde eu estava, “Em quarenta minutos estou aí”. Ele só queria saber se eu não ia sair. Eu ia ficar no hotel. Ele veio e achou que não havia nada propriamente a consertar. Mas pedi para ele tocar depois de mim. E conversamos. Oscar era um sujeito simplesmente maravilhoso. Mesmo em Salvador em 1963 eu não imaginava João Gilberto cantando “Chora tua tristeza”. Era uma coisa muito íntima e minha o gosto por aquela canção. Como com “La strada” ou “Noites de Cabiria”. E da mesma natureza. Um crítico inglês, desses presunçosos que escrevem em revistas de rock, desancou o álbum que saiu do show que fiz para a Fundação Fellini. Ele dizia não haver nada de felliniano no disco e só ouvia a redundante bossa nova de outros discos brasileiros. Era um idiota e estava errado. “Chora tua tristeza” era núcleo de um sentimento que eu reencontrava no cinema felliniano. “Coimbra” e “Coração materno” eram radiografia de Nino Rota. Mas isso são outros quinhentos (leio mil coisas erradas sobre discos e shows meus, mas não respondo ou guardo quase nada; esse artigo do inglês sobre “Omaggio a Federico e Giulietta” eu nunca esqueci, embora não tenha uma cópia comigo). Já a colaboração de João com Oscar no disco do México é coisa que, quando a gente ouve, entende que aquilo fatalmente iria acontecer. “Astronauta” é prova de que João e Oscar tinham de se encontrar. Entrei nesse assunto todo porque meu amigo Fernando Salem me contou que em sites de letras e cifras “Chora tua tristeza” aparece como se fosse composição minha. Não é. É de Oscar Castro Neves e Luvercy Fiorini. De “Marinheiro só” (anônimo tradicional da Bahia) a “Sozinho” (de Peninha), há uma pá de músicas que muita gente pensa que compus, quando só quis cantá-las.
“Chora tua tristeza” tem aquela descrição da felicidade no amor que cria um ambiente de responsabilidade. “É tão bonito gostar e querer ficar com alguém”. Manda chorar para que a tristeza fuja, como da cara de Cabiria no final do filme. Mas não é essa a ligação. A ligação é o clima íntimo vivido por quem canta e viu Fellini.
Sozinho e só, penso no movimento “Não vai ter Copa” e nas disritmias brasileiras. Olho os relógios de rua que, além das horas, dizem dia, mês, temperatura e penso em quanto se renovam coisas assim nas ruas do Brasil sem que a gente sinta sinal de que essas coisas vão durar. Quando sairemos do mundo de construções que já são ruínas? Bem, a bossa nova já deu a virada na mitologia amorosa nacional. Não consigo crer que esse esforço gigantesco tenha sido em vão....

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