fala Caetano

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Caetano Veloso

 Será que Dilma confundiu o “Samba do avião” com o “Samba de Orly”? João Santana é que não pode ter sido. Quanta confusão! A Bahia tá viva ainda lá. Fui fazer uma palestra musicada em Salvador, para o pessoal do Projeto Axé. Essa organização se dedica à educação dos meninos e meninas de rua de Salvador. “De rua”, aliás, é uma caracterização que os dirigentes do Axé não aprovam. Eles vêm realizando um trabalho importante na Bahia há quase 25 anos. Discípulo de Anísio Teixeira e de Paulo Freire, Cesare Rocco tem encontrado, com sua admirável turma de colaboradores, meios de estimular uma garotada arrancada da desesperança a desejar crescer intelectual, afetiva e moralmente. A “aula” que eu me comprometi a dar era sobre Caymmi. Melhor assunto não há. Levei meu violão e cantei algumas das muitas canções que sei desse autor (antigamente eu tinha a ilusão de que sabia todas: ele não tem um repertório muito extenso, tendo sempre preferido concentrar-se na qualidade, ou melhor, na necessidade do aparecimento de certas canções). Foi uma ida relâmpago a minha terra. Antes eu tinha estado em Belém, uma das cidades mais bonitas e condutoras da imagem que o Brasil faz de si mesmo. Ao menos através de mim.
O voo do Rio a Belém dura três horas e meia. Na noite da minha ida houve um atraso de quatro horas, acho que devido ao acidente com o avião que pousou sem trem de aterrissagem em Brasília. O Galeão não está nada parecido com o samba de Tom (onde ele usa o verbo “aterrar”, como em Portugal, coisa de que gosto muito, mas teve gente que quis traduzir para “pousar”, que nem fica bem na métrica da melodia — e Dilma comprou essa versão), de modo que ficar quatro horas lá não foi propriamente reconfortante. Sou, suponho, o exato oposto de Karim Aïnouz, para quem o paraíso é o aeroporto de Frankfurt e que adora conexões de voo longas. Poucos sabem, mas foi Caymmi quem pôs letra na introdução do “Samba do avião”. Aliás, nem me referi a isso em minha fala, que foi improvisada e cheia de anedotas, mas muito ambiciosa. “A Bahia tá viva ainda lá”, a propósito, é também de Caymmi: do samba “Adalgisa”, uma dessas joias caymmianas que a gente quase não consegue distinguir dos cantos tradicionais e anônimos.
A ida a Belém teve profundo significado para mim. Há uma canção que fala no Pará em “Abraçaço” e até agora nenhum eco me tinha chegado desde Belém: seja por comentários de amigos de lá, seja traduzido em convite para apresentações, nada. A canção, chamada “O império da lei”, é, aos meu olhos, um monstrengo que me saiu, irrecacavelmente, quando assisti a “Receberia as piores notícias dos seus lindos lábios”. A expressão que lhe dá título é um chavão dos liberais que descrevem as conquistas do Ocidente moderno. Toda a letra se aferra a um prosaísmo semelhante àquele de “A base de Guantánamo”, só que sem a mesma coesão e qualidade desta. A melodia lamentosa, em tom menor, da segunda parte me foi inspirada pela cena do filme em que, num comício, Dona Onete canta um carimbó. Não pela música que ela cantava, mas pelo sentimento que resultava da combinação das cenas com o canto dela. Pois bem, para minha surpresa, em todos os lugares do Brasil por onde passei com o show do “Abraçaço” a plateia cantava comigo esse trecho, o que me comovia. O show em Belém era num clube luso, muito simpático, mas parecia que na plateia não estariam as pessoas que em geral cantam: gente jovem e conhecedora do “Abraçaço”. Bem, entrei no palco satisfeito com o que tinha visto de Belém durante a tarde (as praças, as ruas com mangueiras, a cara das pessoas, o açaí sem xarope de guaraná, o Ver-o-Peso e a Feliz Lusitânia, tudo em bom estado, muito limpo e mantendo uma dignidade de causar inveja em qualquer Salvador): se o público mostrasse apenas impaciência e desconhecimento, eu não me queixaria nem intimamente. Mas foi o contrário. Cantaram “Abraçaço”, “Um comunista”, “Odeio”, tudo, e, mais que tudo, a segunda parte de “O império da lei”, que pela primeira vez deixei toda para a assistência. Peguei um ita no norte. Chorei. A Bahia de ACM Neto (calçadões na Barra e recapeamentos) me pareceu muito melhor. Tomara que a ambição política de Grampinho se traduza em limpeza total e diária da areia do Porto da Barra (da praia e do fundo), qualquer coisa assim grande, que traga de volta o orgulho da população. Isso pode mudar muita coisa. As cidades brasileiras ficaram feias com o êxodo rural e o crescimento urbano. Parece insuperável? Espero o destino grandioso. O que vi em Belém (a música que fiz com Donato na cabeça) dá confiança. Porque não há sonho mais lindo do que sua terra, não há.


30Mar2014

Animal

 Nunca fui dos automóveis. Aprendi a dirigir aos 35 anos. Até hoje não reconheço marcas nem modelos. Quando me dizem “atrás do Palio prata” ou “do lado do Fiesta”, fico com cara de imbecil, sem ter ideia de como se possam traduzir visualmente tais nomes. Quando eu era menino, brincava com ferros dos postes do telégrafo à guisa de trens (meu pai era telegrafista e agente postal: o material de manutenção das linhas ficava estocado no almoxarifado que era parte do nosso sobrado de morada), nunca com carrinhos de plástico (nós não tínhamos brinquedos comprados em lojas, exceto algumas bonecas que pertenciam a minhas irmãs e com as quais não se esperava que os meninos brincassem — e nós não fazíamos o que não era esperado: transformávamos os frascos de perfume vazios em bonecos que representavam adultos, não em bebês equivalentes aos das meninas). O carro era algo ausente das nossas fantasias. Em Santo Amaro podiam-se contar nos dedos os automóveis existentes na cidade. Um era do padre Fenelon, outro de dr. Clóvis, um terceiro era de dr. Sérgio — sendo que seu Pedro Azevedo chegou a ter mais de um: ele alugava para viagens a Oliveira, a Feira, mesmo a Salvador. As ruas eram cortadas pelos bondes e tróleis puxados a burro, da Companhia Trilhos Urbanos, mas carros rarissimamente interrompiam nossas rodas de conversa, brinquedo e samba de meio de rua.
Gosto de dirigir por razões semelhantes às dos bofinhos que passam a ter dinheiro para comprar carro. Mas sou muito diferente deles. Na madrugada, vivo como uma brincadeira o gozo do veículo em movimento acionado por uma pressão do meu pé. Nunca tive foi a paixão do carro, aquele anseio de domínio e destreza. Meu pai nunca sequer pareceu sonhar em dirigir. Acho mesmo que entrei num automóvel bem tarde em minha vida. Não foi na primeira infância. Meu padrinho era um doutor preto que tinha ido viver em São Paulo e, por isso, nem estava presente ao meu batismo, tendo sido representado por Vivaldo, um mulato gordo, surdo e genial. Esse padrinho “por representação” foi meu padrinho sempre, mesmo quando o padrinho oficial veio de Sampa, com uma mulher branca e cheio de referências sofisticadas, reconhecendo trechos de Donizeti na música da novena. Vivaldo tinha uma moto e, bem mais tarde, comprou um carro. Sou tão distante dos caras que ganharam carro aos 18 anos que os vejo como se fossem outra espécie animal. As moças que dirigem desde adolescentes e, portanto, exibem muito mais desembaraço ao volante do que eu jamais terei são motivo de fascinado espanto.
Mas não sou uma grande piada como motorista. Apaixonado pelas regras de trânsito, sou um amador sóbrio e não muito ridículo ao volante. Tenho, é verdade, cada vez maior preguiça de fazer manobras para estacionar. Mas não vivo provocando buzinaços por onde passo. Apenas acolhi com mais do que mera naturalidade as observações de Lévi-Strauss sobre o brinquedão de Benz. Em meio à amargura cética com que o antropólogo vê o progresso de que o Ocidente se orgulha, aparece a definição: o carro é um animal do qual somos apenas o sistema nervoso central (ou pelo menos era nessa forma que a ideia reaparecia numa canção prosaica — tipo “Base de Guantânamo” ou “O império da lei” — que quase completei em 1972).
Pois bem. Na semana passada, eu, com dor na lombar por causa de uma hérnia de disco, dirigi do Leblon a Ipanema para ver minha fisioterapeuta. Atravessei aquela ponte de Dudu Paes no Jardim de Alá e peguei a Redentor. Parei na esquina da Garcia D’Ávila, rua onde eu ia dobrar: um ônibus vinha da Lagoa, e essa rua é preferencial. O motorista, no entanto, freou o ônibus e acenou me dando passagem. Fui retirando o pé do freio e pondo-o no acelerador, enquanto girava o volante à direita. Antes que esses movimentos se realizassem (em conjunto com minha virada de cabeça para o lado aonde eu estava indo), ouvi batidas fortes na lataria. Uma senhora que estava vindo pela Garcia fora atingida pelo meu carro. Este estava em velocidade lentíssima e em fração de segundo me dei conta da situação. A senhora estava indignada, com razão: não se pode fazer um auto andar sem antes olhar o que poderá estar no caminho para onde se o leva. Não houve dano físico. Ela me chamou de maluco e eu pedi perdão. Mas deprimi. Tomei a decisão de nunca mais dirigir, odiei a existência dos automóveis, senti minha velhice como um déficit de reflexos, pensei em Lévi-Strauss. Mas voltei a dirigir logo que deixei a fisio. Continuei triste. Olhei com compaixão a cara de Cabral confrontado aos bandidos. Quem é contra as UPPs? E pensei com piedade em Dilma, sozinha diante da barafunda da compra de Pasadena.